Barron Trump, Elon Musk e os livros do século 19: apuramos a teoria da "família viajante do tempo"

Castelo Trump, o Secretário Pence e o título "Elon": livros de 1889 a 1953 viraram "prova" de viagem no tempo. Apuramos cada nome, incluindo o real motivo por trás deles.

Codinome OLB

7/30/20269 min read

Resumo

Existe uma teoria que circula há anos em fóruns e redes sociais afirmando que a família Trump — e, por extensão, Elon Musk — teria acesso a uma tecnologia de viagem no tempo, escondida havia gerações. A "prova" seria uma sequência de livros escritos entre 1889 e 1953, décadas ou mais de um século antes dos eventos que supostamente anteciparam: um garoto aristocrata chamado Baron Trump que mora no "Castelo Trump"; um Secretário de gabinete chamado Pence num romance de 1896; e um posto de liderança marciana chamado "Elon" descrito por um engenheiro da NASA em 1953. Um elo real de história documentada — o tio de Donald Trump analisando os papéis de Nikola Tesla após sua morte — é usado para amarrar tudo isso numa narrativa única.

Apuramos cada um desses elementos separadamente. Os nomes e coincidências são, em sua maioria, reais e verificáveis. As explicações por trás deles, no entanto, são bem menos místicas do que a teoria sugere — e um dos casos tem uma explicação histórica tão específica e documentada que praticamente encerra a discussão sozinha.

Índice

  1. Contexto: a família de livros por trás da teoria

  2. O lado pouco explorado: os quatro elementos, apurados um a um

  3. Contraponto: por que cada nome tem uma explicação mais simples

  4. Análise: como fatos reais viram amarração de teoria

  5. O que ainda não sabemos

  6. Fechamento

  7. Fontes e leituras adicionais

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Contexto: a família de livros por trás da teoria

Ingersoll Lockwood (1841–1918) foi um advogado, diplomata e escritor americano, autor de romances infantis e de um romance distópico para adultos. A parte de sua obra que interessa a esta apuração é uma pequena série escrita no fim do século 19:

  • "Travels and Adventures of Little Baron Trump and His Wonderful Dog Bulger" (1889)

  • "Baron Trump's Marvellous Underground Journey" (1893)

  • "1900; or, The Last President" (1896)


Décadas depois, com a ascensão política de Donald Trump — e, mais recentemente, com a proeminência pública de Elon Musk —, essa obra quase esquecida voltou a circular, junto com um livro de ficção técnica de 1953 do engenheiro aeroespacial Wernher von Braun. A teoria do "viajante do tempo" tenta unir os dois casos, junto com um episódio real e bem documentado da história de Nikola Tesla, numa única narrativa de que a tecnologia de deslocamento temporal estaria na posse da família Trump havia gerações.

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O lado pouco explorado: os quatro elementos, apurados um a um

1. O Barão Trump, o Castelo Trump e o mestre "Don"

Nos dois primeiros livros, o protagonista é um garoto aristocrata chamado Baron Trump (grafado com um "r" a menos que "Barron"), que mora no "Castelo Trump" e é guiado em sua jornada à Rússia por um homem chamado "Don", descrito como "o mestre de todos os mestres". O lema da família no livro é "o caminho para a glória é cheio de armadilhas e perigos".

Confirmado como texto real: todos esses elementos — nome, castelo, guia chamado Don, lema, viagem à Rússia — estão de fato nos livros de 1889 e 1893, hoje disponíveis integralmente no Archive.org e catalogados pela Biblioteca do Congresso dos EUA.

2. O Secretário Pence e "O Último Presidente"

O terceiro livro, "1900; or, The Last President" (1896), narra a eleição improvável de um empresário populista à presidência dos EUA, em meio a protestos na Quinta Avenida de Nova York e um discurso tenso ao Congresso. No governo fictício descrito no livro, o Secretário de Agricultura se chama Pence.

Confirmado: o nome aparece exatamente como descrito, segundo múltiplas resenhas e descrições editoriais do livro (Amazon, Goodreads).

Imagem Fato: Imagem das capas dos dois primeiros livros: "Travels and Adventures of Little Baron Trump and His Wonderful Dog Bulger" (1889) e "Baron Trump's Marvellous Underground Journey" (1893).

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3. O tio de Trump e os arquivos de Tesla

Em janeiro de 1943, dois dias após a morte do inventor Nikola Tesla num hotel de Nova York, o governo dos Estados Unidos apreendeu seus documentos pessoais, temendo que contivessem segredos militares (Tesla afirmava ter desenvolvido um "raio da morte"). O engenheiro designado para analisar o material foi John G. Trump, professor de engenharia elétrica do MIT — e tio de Donald Trump.

Confirmado, e este é um fato histórico bem documentado, não uma teoria: o FBI liberou, por meio de pedidos de acesso à informação (FOIA), documentos confirmando a participação de John Trump na análise dos papéis de Tesla. Sua conclusão oficial, na época, foi que o material era majoritariamente "especulativo, filosófico e de caráter promocional" — nada de novo ou perigoso.

4. O "Elon" de Wernher von Braun

Em 1953, foi publicada a tradução para o inglês de "Project Mars: A Technical Tale", escrito em 1949 pelo engenheiro aeroespacial alemão-americano Wernher von Braun (que depois lideraria o desenvolvimento dos foguetes Saturno V da NASA). O livro descreve uma futura colônia em Marte governada por um conselho de dez pessoas, liderado por um cargo chamado "Elon".

Confirmado, com uma ressalva importante: a alegação viralizou em 2021, depois que um usuário do Twitter/X respondeu a uma publicação do próprio Elon Musk sobre viagens a Marte, mencionando o livro. Outro usuário, porém, publicou o trecho original em inglês, esclarecendo que, no livro, "Elon" é o título do cargo de liderança, não o nome de uma pessoa específica.

Imagem Fato: O físico John Trump, em um laboratório de pesquisa de alta voltagem no MIT. Ele era o irmão mais novo do pai de Donald Trump, Fred. Foto de Alfred Eisenstaedt / The LIFE Picture Collection / Getty.

Imagem Fato: Capa do livro "Project Mars: A Technical Tale" (1949).

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Contraponto: por que cada nome tem uma explicação mais simples

"Baron", "Don" e "Castelo" são clichês literários da época, não códigos ocultos. Romances de aventura infantil do fim do século 19 se apoiavam fortemente em personagens aristocráticos com títulos nobiliárquicos — barões, condes, castelos — como recurso narrativo padrão para transmitir riqueza e status ao leitor. "Don" também já era, havia séculos, um título de respeito de origem espanhola usado para homens de posição social elevada na literatura ocidental — não uma referência específica a "Donald". "Trump", por sua vez, já era uma palavra comum da língua inglesa (como em "trump card", a carta que vence as demais no jogo), o que a torna uma escolha plausível de sobrenome para uma família fictícia "vencedora" numa obra satírica — não uma antecipação do sobrenome de uma família real que, à época, ainda não era publicamente proeminente nos EUA.

O Secretário Pence tem nome e biografia reais, e viveu exatamente naquele período. Lafayette "Lafe" Pence foi um congressista americano real, eleito pelo Partido Populista para representar o Colorado no Congresso dos EUA entre 1893 e 1895 — exatamente os anos em que Lockwood escrevia o livro, publicado em 1896. Pence era uma figura pública do mesmo movimento político (populista) que o romance satiriza diretamente, imaginando um presidente ao estilo de William Jennings Bryan. Usar o sobrenome de um político populista real e contemporâneo numa sátira sobre um governo populista fictício é sátira política direta, não previsão do futuro — o mesmo padrão, aliás, que já vimos na piada da crise grega dos Simpsons, feita quando a crise já estava em curso.

A ligação entre Lockwood e Tesla não tem qualquer fonte documental. O papel de John G. Trump na análise dos arquivos de Tesla é fato histórico sólido — mas não encontramos, em nenhuma fonte confiável, evidência de que Ingersoll Lockwood (morto em 1918, 25 anos antes de Tesla) tenha morado perto do inventor ou tido qualquer relação pessoal com ele. Essa parte da teoria aparece apenas em comentários de blogs e redes sociais de teor conspiratório, sem citação de fonte primária. Dois fatos reais e completamente independentes — as coincidências dos livros de Lockwood, e o papel documentado do tio de Trump nos arquivos de Tesla — estão sendo conectados por um elo ("a máquina do tempo ficou na família") que não existe em nenhum registro histórico.

"Elon" já era um nome antigo antes de Von Braun escrever, e antes de Elon Musk nascer. Elon é um nome hebraico bíblico legítimo — na tradição judaica, é o nome de um dos Juízes de Israel mencionado no Livro de Juízes, com o significado de "carvalho" ou "grande árvore". É, até hoje, um nome e sobrenome comuns entre pessoas de origem judaica (há juízes, rabinos e escritores israelenses reais chamados Elon). Um cientista alemão com formação clássica, escrevendo um título de liderança para uma colônia planejada, tinha uma fonte muito mais óbvia à disposição do que "adivinhação do futuro": uma palavra hebraica antiga já em uso havia milênios. Vale notar também que Elon Musk nasceu apenas em 1971 — dezoito anos depois da publicação do livro de Von Braun.

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Análise: como fatos reais viram amarração de teoria

Esse caso segue um padrão ligeiramente diferente dos outros que já cobrimos nesta série. Em vez de uma única coincidência isolada (como o outdoor do Snake Eyes ou a equação do Bóson de Higgs), aqui a teoria funciona costurando vários fatos genuinamente reais e documentados, mas sem qualquer relação causal comprovada entre si: os livros de Lockwood existem; o Secretário Pence existe no texto; John Trump analisando os arquivos de Tesla é história arquivada; o título "Elon" está mesmo no livro de Von Braun. Nenhum desses fatos é inventado — o que é inventado é o fio que os conecta.

Essa técnica — pegar fatos verdadeiros e independentes e sugerir uma conexão causal oculta entre eles, sem nenhuma evidência dessa conexão específica — é estruturalmente diferente da simples coincidência estatística que discutimos nos artigos sobre os Simpsons ou sobre Messi e Lamine Yamal. Ali, o mecanismo era "o acaso, dado volume suficiente de material". Aqui, o mecanismo é a costura deliberada de fatos reais e desconectados por um elo hipotético (a "máquina do tempo") que nenhuma fonte documenta — o mesmo princípio por trás de boa parte da literatura de "códigos ocultos" em textos antigos, que sempre consegue encontrar múltiplos pontos de dados reais para amarrar a uma narrativa unificadora, desde que a narrativa em si nunca precise ser provada, apenas sugerida.

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O que ainda não sabemos

  • Se Lockwood teve qualquer contato pessoal com Tesla. Ambos viveram em Nova York durante décadas sobrepostas (Tesla desde 1884, Lockwood até sua morte em 1918), o que é geograficamente possível, mas não encontramos nenhuma fonte biográfica de nenhum dos dois mencionando um conhecendo o outro.

  • A motivação exata de Von Braun para escolher "Elon" como título. Não encontramos uma declaração direta do próprio Von Braun explicando a escolha da palavra — a explicação da raiz hebraica é a mais plausível disponível, mas não uma confirmação do próprio autor, que morreu em 1977.

  • Se Lockwood conhecia a existência de algum "Pence" específico além de Lafayette Pence ao escrever o romance — é a explicação mais parcimoniosa disponível, mas não uma citação direta do autor confirmando a inspiração.

Fechamento

Dos quatro elementos apurados, três têm explicação direta e razoavelmente sólida assim que se investiga o contexto histórico e literário da época em que foram escritos — nenhum exige recorrer a viagem no tempo. O quarto (o papel de John Trump nos arquivos de Tesla) é, na verdade, o único fato historicamente sólido de toda a teoria — só que ele não tem relação alguma com os livros de Lockwood, exceto pela coincidência de que ambos os fatos, isoladamente reais, envolvem sobrenomes da mesma família anos depois.

O que fica dessa apuração não é "os livros não têm nada de estranho" — as coincidências de nome são, de fato, notáveis e verificáveis. É que "notável" segue não sendo sinônimo de "inexplicável", e cada peça dessa teoria, examinada individualmente com o contexto histórico correto, perde boa parte do mistério que ganha quando apresentada em bloco, como se todas as peças precisassem necessariamente vir do mesmo lugar.

Fontes e leituras adicionais

Documentos primários e obras originais:

  • Ingersoll Lockwood, "Baron Trump's Marvellous Underground Journey" (1893) e "1900; or, The Last President" (1896) — domínio público, Archive.org

  • Wikipédia (inglês), "Ingersoll Lockwood", "Baron Trump novels", "Lafe Pence", "Elon (judge)" — en.wikipedia.org


Reportagens e coberturas jornalísticas:

  • El Ciudadano, "Donald Trump's Uncle Reviewed Nikola Tesla's Confiscated Documents After His Death" — elciudadano.com

  • MuckRock, "FBI releases catalog of Nikola Tesla's writings seized after his death" — muckrock.com

  • History.com, "The Mystery of Nikola Tesla's Missing Files" — history.com

  • Yahoo Finance, "How Tesla, Nikola and Donald Trump are all connected" — finance.yahoo.com

  • Exame, "Em 1953, cientista previu que um líder chamado 'Elon' comandaria Marte" — exame.com

  • Goodreads e Amazon, resenhas e descrições editoriais de "1900; or, The Last President"